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Brasão de cidade alemã gera debate sobre racismo


Nos dias ensolarados de julho, a praça do mercado da cidade alemã de Coburgo, no norte da Baviera, parece um salão preparado para um banquete – tudo muito harmônico. De um lado, casas restauradas alinhadas e hóspedes muito bem vestidos, do outro, como dois anfitriões arrumados, as imponentes fachadas da prefeitura e da Stadhaus (um antigo edifício governamental) coroam a paisagem. Soma-se ela o calmante som de fontes espalhadas pelo local.

Poderia ser um lindo verão em Coburgo, se a controvérsia sobre o brasão da cidade não tivesse perturbado sensivelmente essa atmosfera. A cidade foi confrontada com a acusação de carregar uma imagem racista em seu brasão, o chamado "Coburger Mohr" (negro de Coburgo).

O brasão possui a cabeça de um negro, com características que seu criador considerou típicas da população africana: lábios grossos, cabelos encaracolados e um grande brinco crioulo. A imagem está em todos os locais da cidades, além de fachadas e placas, surge a cada poucos metros em tampas do sistema de canalização e esgoto.

Para Juliane Reuther e Alisha Archie, a ilustração com estereótipos do período colonial é discriminatória. As duas ativistas, que moram em Berlim, mas são da região de Coburgo, iniciaram uma petição online em junho para mudar o brasão da cidade. 

Segundo Archie, o retrato não reconhece que negros são diferentes e sugere, em vez disso, "algo exótico, e selvagem". "É uma representação racista que hoje em dia não pode mais simplesmente ter espaço", acrescenta a ativista.



A acusação é relevada ou, até mesmo, incompreendida por muitos moradores de Coburgo. As duas moças de Berlim devem ter muito tempo, reclama uma mulher. Outra afirma que o "negro" pertence à cidade e assim deve permanecer. 

Na prefeitura, o tom é pouco diplomático. Uma discussão "sem sentido", dizem, alegando que, no caso de Coburgo, não se pode realmente falar em racismo. O negro como símbolo da cidade seria muito mais um sinal de honra.

Discriminação ou honra?

O especialista em cultura Hubertus Habel, que pesquisou para o seu doutorado sobre o símbolo da cidade e sua história cultural, também fala em reverência. Segundo ele, a imagem simboliza São Maurício, um legionário cristão de pele escura que foi executado devido à sua fé. Habel avalia que a imagem do negro no brasão neste caso é "perfeitamente em ordem, porque expressa apreço e respeito a esse santo". São Mauricio é o padroeiro da cidade.

A ativista Archie, porém, contesta essa versão e diz que não se pode falar em honra, "quando uma imagem racista é utilizada para isso". 

A representação de São Maurício mudou ao longo do tempo. Provavelmente, ele não era realmente negro. O santo seria originário do Alto Egito. Foi somente na Idade Média que a representação de São Maurício negro se impôs na Europa. O brasão de Coburgo aparece no final do século 16. 

A petição atual não é a primeira tentativa de remover o símbolo do brasão. Em 1934, os nazistas chegaram substitui-lo pela imagem de uma adaga e uma suástica, uma imagem mais sintonizada com a ideologia do regime de Adolf Hitler. O antigo símbolo do "Mouro de Coburgo" foi restaurado depois da Segunda Guerra, com um design atualizado.

A discussão sobre o antigo termo Mohr (negro) reúne história e clichês, consciência de tradição e discurso sobre racismo. Na Alemanha, ela não é um tema somente em Coburgo. No contexto dos protestos mundiais antirracistas, espaços públicos e o comércio com nomes considerados racistas foram alvos de críticas, como a estação de metrô Mohrenstrasse, em Berlim, a rua Mohrenstrasse, em Colônia, o hotel Drei Mohren, em Augsburg, ou a farmácia Mohren, em Magdeburg. E esses são apenas alguns exemplos da lista.

Nem todos esses nomes remetem a uma veneração a São Maurício. Mas em todos o questionamento é o mesmo: qual o limite entre a história da cidade e o racismo estrutural? Às vezes, ele é fluente. Além disso, o debate se complica pois pesquisadores discordam das origens da palavra Mohr e de sua conotação – se é apenas descritiva ou depreciativa.



Enquanto Habel fala sobre uma denominação comum da Idade Média, que, no caso de Coburgo, seria "imparcial e até estimada", a especialista em cultura e literatura da Universidade de Bayreuth Susan Arndt têm outra opinião.

"Desde o início, o termo foi usado pejorativamente e a partir de uma perspectiva cristã branca, além de ter uma intenção discriminatória", argumenta Arndt, acrescentando que o termo nunca foi usado de forma neutra.

Para a especialista, que também pesquisa sobre racismo, há paralelos entre o atual debate e o que ocorreu há alguns anos sobre o termo Neger – palavra para negro carregada de conotação racista. Segundo Arndt, na época, também foi dito que os críticos do termo discriminatório não argumentaram corretamente e que a palavra não seria pejorativa. "Assim, não é possível debater o racismo", lamenta a pesquisadora.

Petição contrária

A prefeitura de Coburgo demonstra não ter vontade nenhuma de abordar o tema. O prefeito se recusa a dar entrevista e seu porta-voz respondeu à Deutsche Welle que tudo que deveria ser dito sobre o tema já foi dito.

Em reação à iniciativa das ativistas que moram em Berlim, os habitantes da cidade lançaram um petição online denominada "o negro de Coburgo deve permanecer, salve o patrono da cidade no brasão". O apelo tem bem menos apoiadores do que a petição que defende a mudança.

Um debate diferenciado é urgentemente necessário, opina Tahir Della da Iniciativa Negros na Alemanha. Segundo ele, locais onde o Mohr é uma referência a São Maurício poderiam adotar o nome do santo. Para Della, o termo, no entanto, se tornou obsoleto. Não importa sua origem ou se expressa uma veneração, ressalta, ele continua sendo discriminatório para os negros.

"É como chamar alguém de idiota, e se essa pessoa não tolera isso, tenta se explicar porque isso é possível. É exatamente isso que está acontecendo neste momento", acrescenta Della.



Fonte: DW

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