Refinaria no Rio seguia paralisada enquanto ministro anunciava que operações estavam normalizadas
O pronunciamento do presidente Michel Temer anunciando o
emprego das Forças Armadas para acabar com as paralisações de caminhoneiros no
Brasil e as garantias dadas mais tarde pelo ministro do Gabinete de Segurança
Institucional (GSI), Sérgio Etchegoyen - afirmando que as operações na Reduc, a
refinaria da Petrobras em Duque de Caxias, no Rio, teriam sido regularizadas -
não surtiram muito efeito no local.
A BBC Brasil acompanhou todo o movimento na entrada da
refinaria na tarde desta sexta-feira e, embora o ministro tenha anunciado em
coletiva de imprensa, às 18:03, que a Reduc "retomou quase na
integralidade suas operações", e havia reiniciado o reabastecimento da
cidade do Rio, nada disso aconteceu nesse período - e a manifestação dos
caminhoneiros no local continuava firme e decidida a permanecer.
O protesto dos motoristas na refinaria da Petrobras em Duque
de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio, começou na segunda-feira, e motoristas
têm se revezado virando a noite para manter a mobilização no local.
O protesto à beira da avenida Washington Luís não está
bloqueando a via, mas impede a entrada de caminhões-tanque para carregar
combustível e abastecer a cidade. Exceções têm sido abertas para o
abastecimento das forças de segurança do Rio, hospitais e outros serviços
essenciais.
Por volta das 13:18 desta sexta-feira, viaturas e
motocicletas da Polícia do Exército escoltaram um caminhão-tanque ao local,
mas, de acordo com o Comando Militar Leste (CML), a operação para assegurar o
abastecimento não teve relação com os anúncios feitos em Brasília.
"As viaturas da Polícia do Exército que foram à Reduc
estão lá com a finalidade de escoltar um caminhão-tanque de combustível destinado
a garantir o fluxo de abastecimento do Exército. Desse modo, o caso específico
não guarda relação com a natureza do emprego determinado pelo Sr. Presidente da
República", afirmou, em nota, o coronel Carlos Cinelli, porta-voz do CML,
cerca de uma hora antes do ministro Etchegoyen anunciar que o movimento na
Reduc já estaria normalizado.
Buzinaço e hino nacional
Às 16:15 na porta da Reduc, o clima era festivo, com
manifestantes embrulhados em bandeiras do Brasil - uma remessa havia acabado de
chegar e ser distribuída - e cantando o hino nacional que foi reproduzido
diversas vezes por um carro de som.
Apesar do anúncio de Temer horas antes - afirmando que o
governo teria "coragem" de agir e que as Forças Armadas seriam
convocadas a atuar -, os caminhoneiros diziam não ter medo.
"Não estamos obstruindo as vias, não tem por quê eles
chegarem com violência", diz o motorista Daniel Cunha, de 36 anos,
argumentando que quem reclama do transtorno não pensa que, se houver redução
dos preços de combustíveis, o benefício será "para todos". "Se
vai dar certo eu não sei, mas estamos lutando, e para o bem de todos."
Às 16:30, um grupo preparava carne em uma churrasqueira, com
bifes e linguiças assando na brasa e um rápido avanço dos presentes sobre as
fatias cortadas numa tábua de madeira.
Na pista lateral da Avenida Washington Luís, um trio pintava
no asfalto a frase "o povo quer intervenção militar já!", com
pinceladas tinta branca em letras garrafais.
O buzinaço era constante dos carros que passavam lentamente
pelo protesto, a maioria em saudação aos manifestantes, que gritavam e pulavam
em volta dos veículos estendendo um cartaz: "Preço do óleo diesel
justo!". Outros buzinavam irritados, protestando contra o engarrafamento.
Um dos motoristas esticou o braço para fora distribuindo cumprimentos em
sequência aos manifestantes; em seguida, outro passou xingando a todos de bandidos.
'Sem provocação e sem fechar vias'
Os caminhoneiros estão se revezando na porta da Reduc desde
segunda-feira. Antônio Soares Mouzinho diz ter achado um "absurdo" a
convocação do governo às Forças Armadas.
"Acho que militar que é militar de verdade tem que ficar
sem ação. Porque, além de tudo, ele é brasileiro. Não pode ser contra outro
brasileiro que está lutando por algo que é para todos. Isso é uma corrente, e a
gente é um dos elos", afirmou.
"A gente está na paz. Mas a gente está pronto pra tudo,
pra guerrear também. Se vierem com violência, a gente vai vir também. A gente
não quer isso. Mas a gente tá aqui para ganhar a luta. Pra todos."
Por volta das 17:30, o clima de repente ficou mais sério. A
Polícia Rodoviária Federal (PRF) fechou o acesso à pista lateral, por onde a
passagem de veículos e o buzinaço constante vinham inflando os ânimos dos
manifestantes. Policiais que monitoravam o protesto constantemente, do outro
lado da pista, ergueram os escudos. Foi a deixa para um tumulto entre os caminhoneiros
e uma convocação para uma rápida reunião.
"A PRF está com escudo, o que quer dizer que está
preparada para porrada. O nosso foco é ficar aqui sem brigar, sem estresse. Aí
não tem como tirar a gente", dizia uma liderança local, aconselhando todos
os homens ao redor a não discutir e não tentar fechar a via. "Se for para
a rua fechar vai 'dar ruim' para a gente, e é idoso que eles querem",
afirmou. "O foco é sem porrada e sem discutir, porque é assim que a gente
está ganhando de todo mundo", disse, sob aplausos.
Os motoristas ouvidos pela BBC Brasil apresentavam uma série
de queixas e reivindicavam que o preço do óleo diesel chegasse ao patamar de R$
2. As outras reclamações incluem a falta de estruturas de apoio na estrada, o
alto preço dos pedágios e os baixos valores de frete repassados a eles por
empresas de transporte.
Às 19:13, os motoristas se preparavam para passar mais uma
noite no local, "firme e forte". "A guerra continua",
resumiram.
Fonte: BBC Brasil

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