Polícia não conseguirá nos desmobilizar, diz caminhoneiro que liderou greves nas eras Sarney e FHC
O anúncio de que o governo Michel Temer ordenou que forças
federais desobstruíssem estradas onde caminhoneiros se manifestam há cinco dias
não esvaziará o movimento, diz à BBC Brasil um dos mais antigos líderes da
categoria, o sindicalista Nélio Botelho.
"Temos convicção de que os policiais não encontrarão formas
de nos desmobilizar. Com isso, a situação ficará mais crítica do que
nunca", afirma Botelho, presidente do Sindicato dos Caminhoneiros
Autônomos do Estado do Rio de Janeiro.
Nesta sexta-feira (25), Temer disse ter acionado "forças
federais para superar os graves efeitos da paralisação".
"Quem bloqueia estradas e age de maneira radical está
prejudicando a população. Vamos garantir a livre circulação e o
abastecimento", disse o presidente.
Os detalhes da ação serão conhecidas quando Temer publicar um
decreto determinando a realização de uma operação GLO (Garantia de Lei e
Ordem).
No começo da tarde, os ministros Raul Jungmann (Segurança
Pública) e Joaquim Silva e Luna (Defesa) conversaram com os comandantes da
Marinha, do Exército e da Aeronáutica no Ministério da Defesa. Logo depois,
foram ao Palácio do Planalto.
Em nota, o Ministério da Defesa disse que as Forças Armadas
atuariam para garantir a "distribuição de combustíveis nos pontos críticos",
fazer a "escolta de comboios", proteger "infraestruturas
críticas" e desobstruir as vias próximas a refinarias de petróleo e
centros de distribuição de combustíveis.
"O emprego das Forças Armadas será realizado de forma
rápida, enérgica e integrada", diz a nota.
Na noite de quinta-feira, a Força Nacional tinha deslocado um
efetivo de 120 homens para auxiliar a Polícia Rodoviária Federal (PRF) a
liberar estradas em Minas Gerais.
'Faço meu papel'
Nélio Botelho viajou para Brasília para participar de
negociações entre o governo e representantes dos grevistas. Ainda assim, diz
que não está à frente da mobilização.
"Não sou negociador, não sou líder de nenhuma greve,
apenas faço meu papel de estar junto da categoria para auxiliar no que eu
puder", diz à BBC Brasil por telefone, durante uma pausa para o almoço.
Botelho afirma que os caminhoneiros não estão bloqueando as
estradas, mas sim "exercendo o direito de manifestação às margens das
rodovias, o que é plenamente legal".
Ele diz orientar os motoristas "a não prejudicar o
trânsito de ninguém, especialmente de carga viva, abastecimento de hospitais e
polícias". "Não queremos prejudicar a população, porque o grande
trunfo que temos na mão é o apoio integral em todo o território nacional",
diz.
"Estamos aguardando a presença dos policiais. Em alguns
pontos eles já estiveram e constataram que não há bloqueio de rodovia",
afirma o sindicalista.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal, porém, caminhoneiros já
interditaram trechos de quase uma centena de rodovias pelo país desde o início
da paralisação.
Em nota divulgada nesta sexta, a Polícia Federal diz que
começou a investigar a possibilidade dos caminhoneiros grevistas estarem
praticando crimes "contra a organização do trabalho, a segurança dos meios
de transporte e outros serviços públicos".
A Advocacia-Geral da União informou que tinha obtido 26
decisões liminares (provisórias) da Justiça proibindo a obstrução de rodovias
em 15 Estados e no Distrito Federal. A AGU também pediu ao Supremo Tribunal
Federal (STF) que declare a paralisação dos caminhoneiros ilegal.
Obstruir estradas é uma infração gravíssima, passível de
multa e remoção do veículo, de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro.
Isenção de impostos
Entre os principais pontos reivindicados pelos grevistas está
a isenção total de impostos federais que incidem sobre o óleo diesel, principal
combustível de caminhões. Os manifestantes também querem a isenção da Cide para
caminhoneiros autônomos e o fim do pedágio para caminhões que trafegam vazios.
Na quinta-feira, o governo fechou um acordo com parte dos
representantes dos caminhoneiros para suspender a paralisação. Entre outros
pontos, o governo ofereceu zerar a Cide sobre o diesel e baixar em 10% o preço
do combustível nas refinarias nos próximos 30 dias.
Muitos caminhoneiros, porém, rejeitaram o acordo e
continuaram o protesto.
Botelho diz que o governo errou ao oferecer
"promessas" em vez de medidas concretas. "Reivindicamos apenas o
necessário para praticar a profissão. Nossa categoria está estrangulada."
Ele rejeita a afirmação de que a mobilização seja um locaute
- tipo de manifestação em que os patrões impedem os trabalhadores de atuar
motivados por seus próprios interesses, e não por reivindicações dos
funcionários. Locautes são proibidos pela legislação brasileira.
O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse haver
indícios de "uma aliança, um acordo entre os caminhoneiros autônomos e as
distribuidoras e transportadoras, e isso é grave, porque apresenta indícios de
locaute".
Para Botelho, porém, a mobilização é liderada não por
patrões, mas por caminhoneiros autônomos.
Histórico de greves
O sindicalista se projetou como representante de
caminhoneiros no governo José Sarney (1985-1990). Desde então, participou de
várias mobilizações pelo país.
Em 1999, em meio a uma manifestação que envolveu cerca de 700
mil caminhoneiros, Botelho negociou diretamente com o então presidente Fernando
Henrique Cardoso (FHC) e teve algumas reivindicações atendidas, como o
congelamento do preço do diesel e de tarifas de pedágio.
Mesmo assim, a paralisação só foi interrompida quando FHC
ameaçou usar as Forças Armadas para desobstruir estradas, quando a mobilização
estava perto de completar uma semana.
Botelho diz esperar que o governo atenda as reivindicações do
movimento nas próximas horas.
"Tem que cair a ficha para o governo: nossa categoria é
fundamental para país e estamos vivendo no submundo", afirma.
"Se a greve avançar pelo fim de semana, chegaremos na
segunda-feira num cenário de caos."
Fonte: BBC Brasil

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