Anulação de contrato no Porto de Santos deixa Temer em apuros
Que semana para Michel Temer. Ele lançou Henrique Meirelles à
Presidência por não ter nenhuma chance de ser o candidato do MDB. Disse que
quem não apoiasse Meirelles deveria sair do partido, mas teve de engolir o
presidente do Senado, Eunicio Oliveira, reagir: “Não vou sair e ninguém me
tira”. Pediu “trégua” a caminhoneiros grevistas e ouviu um sonoro “não”. Viu o
Congresso enterrar de vez sua tentativa de privatizar a Eletrobras.
Não bastasse tudo isso, o Tribunal de Contas da União (TCU),
órgão auxiliar dos parlamentares, mandou o governo desfazer um contrato
assinado, em 2015, pelo ministério dos Portos com uma empresa atuante no Porto
de Santos, Libra, cujos donos são financiadores eleitorais de Temer. Dele e de
seu velho parceiro Eduardo Cunha, ex-deputado preso por corrupção.
O motivo da anulação? Indícios de irregularidades no
contrato, nascido de uma história cheia de digitais do MDB. A ordem é para o
governo cancelar o acordo em até 15 dias e começar a tomar já providências para
realizar uma licitação da área usada por Libra no porto de Santos. Mais: o TCU
vai abrir outro processo, para identificar os responsáveis pelas
irregularidades, e mandará a decisão anulatória para alguns interessados, que
podem ajudar a desvendar responsabilidades criminais.
A Polícia Federal (PF), por exemplo, já toca uma investigação
contra o presidente a devassar a ligação histórica de Temer com o Porto de
Santos, e nessa investigação Libra é personagem. O cancelamento determinado
pelo TCU pode até ser incorporado a esse inquérito, conduzido pelo delegado
Cleyber Malta Lopes.
Uma das assinaturas no contrato anulado é do deputado Edinho
Araújo (MDB-SP), nomeado em 2015 para o ministério de Portos por pressão de
Temer sobre a então presidente Dilma Rousseff. Uma nomeação essencial para
encerrar uma novela iniciada em 2013 graças à dobradinha Temer-Cunha.
O contrato anulado renovou até 2035 três concessões tidas por
Libra para atuar no Porto de Santos. Uma das concessões era de 1998 e valia por
20 anos. Logo após assiná-la em 1998, a empresa entrou na Justiça com a
alegação de que o Porto não cumpria o que devia. E parou de pagar suas
obrigações contratuais. O calote virou uma dívida bilionária, de 2,7 bilhões de
reais em valores atuais.
Em 2012, Dilma baixou uma medida provisória (MP), a 595, com
uma nova Lei de Portos. Só poderiam ter concessão com o poder público as
empresas portuárias sem dívida com órgãos estatais. Como era caloteira, Libra
corria o risco de ser enxotada de Santos quando vencesse a concessão de 1998.
Na votação da MP na Câmara em 2013, Cunha, então líder do
MDB, derrotou Dilma e emplacou na lei uma brecha salvadora para Libra. Devedor
poderia ter contrato de concessão caso o débito fosse negociado em uma
arbitragem, longe dos tribunais. Um dispositivo feito sob medida para Libra,
única do ramo portuário até hoje a recorrer à arbitragem.
A negociação arbitral está em curso desde janeiro deste ano e
é aí que Libra está sendo cobrada a pagar 2,7 bilhões de reais. Nos últimos
dias, houve várias audiências na arbitragem, levada adiante em São Paulo, na
Câmara de Comércio Brasil-Canadá. Diante da decisão do TCU, fica a dúvida sobre
como as negociações vão correr daqui para a frente.
A brecha aberta por Cunha em 2013 não encerrava, porém, o
assunto para Libra. Era preciso que o governo baixasse um decreto complementar
à lei. E que topasse renovar o contrato de 1998 da empresa com o Porto de
Santos. E aí era com Temer.
O decreto regulamentador foi discutido pessoalmente por ele
ao menos uma vez. Foi no segundo semestre de 2013, em uma reunião no Palácio do
Jaburu, residência oficial do vice-presidente. Participaram Temer, Cunha e um
dos dirigentes de Libra, Gonçalo Borges Torrealba, membro do Conselho de
Administração e do Comitê de Relações Institucionais.
Na montagem do segundo governo de Dilma, após a eleição de
outubro de 2014, Temer exigiu da petista que o ministério dos Portos fosse dado
ao MDB. Até então, a pasta estava com outro partido, o PR. Para o cargo, Temer
indicou um fiel escudeiro, Edinho Araújo.
O então ministro antecipou em três anos a renovação do
contrato com Libra. Assinou o novo em 2 de setembro de 2015. Ao mesmo tempo,
concordou que a dívida dela com o Porto fosse discutida em uma arbitragem.
Entre as pré-condições da arbitragem, empresa e governo aceitaram retirar da
Justiça todas as ações sobre a dívida. Um mês depois, Araújo deixava o cargo.
Em 23 de agosto de 2016, três semanas após CartaCapital
contar em detalhes o rolo de Libra em Santos, o Ministério Público Federal
atuante no TCU pediu o cancelamento do contrato renovado.
Para o MPF, o interesse público tinha sido deixado de lado. Libra
não pagou nada pela renovação, nem mesmo um naco de sua bilionária dívida.
Apenas prometeu investir 750 milhões de reais em 20 anos, proposta que Edinho
Araújo aceitou.
A relatora do processo no TCU, Ana Arraes, concordou com o
MPF. Por essa razão, votou por desfazer o contrato, uma posição endossada pelo
plenário da corte de contas nesta quarta-feira 23.
E qual seria a razão de o interesse público ter sido
ignorado? Grana é um bom palpite.
Na eleição de 2014, a família Torrealba, dona de Libra, foi
generosa com quem tinha lhe socorrido no ano anterior. Os irmãos Rodrigo, Ana
Carolina e Celina deram oficialmente quase 1 milhão de reais a Temer e outros
750 mil ao MDB fluminense, então comandado por Cunha. A matriarca Zuleika
Torrealba deu 1 milhão de reais à direção do MDB, controlada por Temer na
ocasião.
A relação financeira da empresa com Temer vinha de longe.
Quando Libra assinou com o Porto de Santos, em 1998, o contrato prorrogado em
2015, o presidente do Porto era um apadrinhado de Temer, Marcelo Azeredo. Este
foi processado por uma ex-mulher, Érika, que queria uma pensão maior e, nos
autos do caso, surgiu uma planilha a registrar propina.
Nessa planilha, vê-se que Libra pagou uma caixinha de 1,280
milhão de reais por dois contratos, entre eles, aquele de 1998. Metade da
grana, 640 mil reais, foi para alguém identificado como “MT”, provavelmente
Michel Temer. A outra metade era para “MA”, possivelmente Marcelo Azeredo, e
“Lima”, provavelmente João Batista Lima Filho, o coronel Lima, amigão de Temer.
A planilha foi ressuscitada pela PF e agora faz parte do
inquérito conduzido pela delegado Lopes. O inquérito corre sob a supervisão do
juiz Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 7 de maio,
Barroso prorrogou-o por 60 dias, a pedido do delegado.
Quando a investigação terminar, a procuradora-geral da
República, Raquel Dodge, terá de decidir se denuncia Temer criminalmente. A apuração
começou em setembro de 2017 com foco na seguinte suspeita: houve dinheiro por
trás de um decreto baixado pelo presidente a permitir a renovação de um
contrato tido por outra empresa atuante no Porto de Santos, a Rodrimar?
De lá para cá, porém, o escopo aumentou. A investigação
passou a abranger os desdobramentos da MP 595, aquela que deu origem à salvação
de Libra e ao contrato que acaba de ser anulado. Terá a “xerife” Raquel Dodge
disposição para agir contra o presidente que a indicou para chefe da PGR?
Fonte: Carta Capital

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